Ave Caesar, morituri te salutant
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O conceito de quem eram os gladiadores, em nossa mentalidade comum, é condicionado mais por reinterpretações no cinema e na mídia em geral do que por fontes históricas, e muitas vezes é confuso. Afinal, estamos falando de escravos ou de uma espécie de “ídolo das multidões”, como um atleta de sucesso pode ser em nossos tempos? Contudo, uma coisa era certa: sabemos por inúmeras fontes que um único munus (exibição com combates de gladiadores) gerava uma rotatividade tão alta que era comparável à de um grande evento esportivo moderno.

Em relação aos gladiadores romanos, uma figura de inegável fascínio, muitas vezes permanecem clichês e mitos sobre quem eles eram e como viviam: eles estavam mais próximos dos escravos, cuja vida estava nas mãos de seus senhores, ou poderiam ser considerados semelhantes aos atletas profissionais de hoje em termos de fama e ganhos? Veremos isso mais adiante.
Ao meu sinal, libertem o inferno!
Quem não conhece essa famosa frase dita por Russel Crowe no filme Gladiador?
A fama dos gladiadores no mundo romano era enorme e seu mito chegou até os dias atuais.
Os espetáculos de gladiadores, chamados Munera, eram oferecidos gratuitamente ao povo pelos magistrados durante o ano do consulado. A população aguardava o evento com grande entusiasmo e recebia informações detalhadas sobre a programação com bastante antecedência por meio de cartazes escritos nos muros da cidade.
O show tinha início na noite anterior com um jantar oferecido pelo patrocinador ou proprietário de uma “escola”. Ali era possível observar os gladiadores e planejar apostas com base em suas condições.
No dia seguinte, uma procissão solene abria a Munera, com um desfile protagonizado pelo organizador dos jogos, os gladiadores vestidos com trajes completos e os assistentes que carregavam os escudos e capacetes dos lutadores. Os músicos acompanhavam o cortejo e tinham a tarefa de criar um clima solene no início dos jogos e suspense nos momentos sangrentos das lutas. O público se aglomerava no anfiteatro e, dependendo de seu status social, ocupava seus lugares na cavea.
O Anfiteatro Flávio
A construção do Anfiteatro Flávio, que deve o seu nome à gens Flávia (Flaviana), é obra do imperador Vespasiano, edificada apartir de 72 d.C. e financiada com a pilhagem romana da conquista de Jerusalém em 70 d.C., inaugurado pelo seu filho Tito e concluído durante o governo de Domiciano, segundo filho de Vespasiano, no ano 82 da era Cristã.
É talvez o monumento mais famoso da antiguidade, idealizado como parte de um projeto de reestruturação de Roma, ainda sob o choque do grande incêndio ocorrido durante o governo de Nero.
O grande anfiteatro surgiu sobre o lago artificial (o stagnum, citado por Marco Valério Marcial em seus escritos) construído por Nero para enfeitar a sua Domus Aurea, consequência de uma damnatio memoriae em prejuízo do imperador apontado pela história como o pirômano que mandou incendiar a cidade. Esse espelho d'água, alimentado por fontes que surgiam das fundações do templo do Divo Cláudio, foi aterrado por ordem de Vespasiano - uma espécie de ato reparatório contra a política do tirano Nero que havia usurpado o terreno público, destinando-o a uso privado - numa tentativa de mostrar à população a linha da fronteira que separava o velho do novo e atual principado.
Entre o final do século V e inicio do VI, foram desmontadas as estruturas do setor sul e executadas as obras de aterro da arena dos espetáculos. A partir da metade do século VI, com a perda total das suas funções para as quais foi idealizado, o Anfiteatro cai em fase de total abandono, sofrendo contínuas e sucessivas espoliações de material: o travertino da estrutura de ingresso, os revestimentos em mármore, os grampos metálicos que uniam os blocos de pedra, tijolos e diveros outros materiais foram subtraídos através dos anos, pela própria população paar construção de habitações. Os furos que hoje podem ser vistos no que restou do travertino são a consequência desse saqueamento.
O Coliseu foi inaugurado pelo filho de Vespasiano, o imperador Tito, mas o projeto só foi concluído por seu irmão e sucessor, Domiciano.
Por ocasião da inauguração (antes mesmo do projeto terminado), Tito mandou bater um sestércio (figura a seguir) que retrata o Anfiteatro Flávio com admiráveis detalhes. Assim como foi executado na retratação do porto de Ostia, foi usado no desenho da moeda uma interessante combinação de duas perspectivas, de forma a ver representado seja o interno que o externo do anfiteatro. Pode-se observar com extraordinária nitidez a presença das estátuas em cada arcada. No interno notam-se as gradinatas com as respectivas subdivisões para o público, além do magote que lotava o anfiteatro durante os espetáculos, a maior parte deles bizarros, degradantes e aviltantes aos nossos olhos (pelo menos a maior parte).

À esquerda do anfiteatro (direita do observador), vê-se a representação da Meta Sudans, a elegante fonte erguida ao lado do Coliseu, ainda em época flávia. Do outro lado (esquerda do observador), à direita do monumental anfiteatro, percebe-se, nitidamente, a representação de um pórtico. Trata-se de exemplar da mais alta raridade.
Pouco tempo depois, o segundo filho de Vespasiano, o imperador Domiciano, operou importantes modificações no Coliseu, completando a obra ad clipea (ornamentos com escudos decorativos em bronze dourado), adicionando o maenianum secundum in ligneis e realizando os subterrâneos da arena. Após essa reforma estrutural, não foi mais possível a realização das naumaquias, (em latim naumachia, literalmente "combate naval"), espectáculo no qual se representava uma batalha naval na arena transformada em uma grande piscina.

A naumaquia romana (figura acima) era um espetáculo onde encenavam batalhas navais em arenas transformadas em piscinas. Após as obras realizadas no Coliseu, por Domiciano, esse gênero de espetáculo foi transferido para outra arena, onde hoje se localiza a praça Navona, construída para suprir as exigências materiais da representação teatral do evento.
Durante o governo de Marco Opélio Macrino, um incêndio causado por um relâmpago que atingiu as enormes tendas que protegiam o público da exposição ao intenso sol, causou enormes danos ao anfiteatro, posteriormente restaurado por Heliogábalo (Eliogabalo). Em 223 d.C., durante o governo de Alexandre Severo, teve lugar uma segunda inauguração do Anfiteatro restaurado. Esse imperador mandou bater áureos e sestércios (figura abaixo) com a incisão do Coliseu no reverso das moedas, para comemorar o evento.

O monumento é, mais uma vez, reproduzido com o uso da dupla perspectiva, estudada pelos incisores de Severo, partindo da cunhagem executada por Tito, 150 anos antes. Contudo, nos sestércios de Alexandre Severo, o Anfiteatro tem uma concepção mais estreita, agora com os gladiadores que combatem na arena. No reverso, do lado esquerdo do Anfiteatro (direito do observador), vê-se o imperador assistido por um servo, tendo ao fundo a Meta Sudans. À direita do Anfiteatro, um templo que provavelmente simboliza um ato de sacrifício prestes a ser cumprido por Severo.
O uso da estrutura interna como habitação da plebe e de imigrantes, organizados em torno da praça central (antiga, e agora aterrada, arena), como canteiro de hortos, como abrigo para animais e depósito de mercadorias, ocorridos durante a idade média, degradou continuamente o monumento até a forma como hoje o conhecemos.

Gordiano III também ordenou obras de reestruturação no monumento, recordando seu feito, desta vez, em um medalhão. Com módulo notavelmente maior, permitiu ao sincisores maior liberdade no desenho dos detalhes, como se pode notar na figura abaixo onde se vê, nitidamente, no reverso, a imagem de um touro e um elefante na arena.
Um novo incêndio se abateu sobre o Coliseu em 250 d.C., constringindo Trajano a executar novso trabalho sde reestruturação. Em 405, o imperador Honório aboliu os espetáculos de lutas entre gladiadores, decretando o Coliseu à abscuridade e abandono parcial. Reestruturado pela última vez por Teodorico, tem início o seu declínio.
Terremotos sucessivos (422, 442, 508, 874, 1255, 1349 e 1703) o danificaram ainda mais, abatendo parte do seu perímetro externo. Subtraído durante séculos de seus mármores e estátuas, o que resta hoje são apenas as ruínas de um monumento que abrigou durante séculos a folia de imperadores sedentos de poder e de uma população tão orgulhosa e evoluída, quanto degenerada, fútil e destituída de valores morais.
O nomE COLISEU, usado para indicar o Anfiteatro, foi usado pela primeira vez no século VIII, derivado da estátua colossal de Nero que se erguia na vizinhança.
O caráter sacro do edifício foi estabelecido pelo Papa Bento XIV que, por ocasião do Jubileu de 1750, mandou erguer uma Cruz Cristã no centro da arena, além das 14 edículas da Via Crucis contornando o perímetro do monumento.
Após o terremoto de 1803, foram executados os primeiros trabalhos de consolidação, com a realização de duas contenções no lado oriental (1805-1807) e ocidental (1827), primeiar fase de um longo processo de recuperação e de pesquisas arqueológicas que transformaram o Coliseu em um rude monumento.

Arquitetura
A estrutura do Anfiteatro foi realizada em blocos de travertino (muros perimetrais e pilastras dos pórticos). O externo do edifício se dispõe em quatro estilos superpostos, atingindo uma altura de quase 50 metros. A última secção hospedava uma colunata em mármore (colunas e capitéis).
O inteiro edifício tem planta elíptica, com o eixo maior medindo 188 metros e o menor 156 metros. Ao centro do edifício, a arena, onde tinham lugar os jogos.
O Anfiteatro era dotado de 80 arcadas de ingresso, 76 delas numeradas, destinadas aos espectadores e 4, orientadas segundo os pontos cardeais, reservadas ao imperador, às autoridades políticas e religiosas e ao sprotagonistas dos espetáculos. Os ingressos monumentais ao norte e ao sul do edifício conduziam a dosi palcos de honra, adjacentes à arena, sendo um deles de uso exclusivo do imperador.
Os locais assinalados e percursos obrigatórios, através das arcadas numeradas, conduziam diretamente aos assentos.

A programação do dia começava cedo pela manhã, com caçadas de animais e execuções capitais “ad bestias”, assim chamadas porque os condenados à morte entravam na arena sem nenhuma arma de defesa e eram despedaçados por feras.
Ao meio-dia, era a vez dos shows de “entretenimento”: outro tipo de execução com encenações mitológicas com um final trágico em que os protagonistas realmente morriam.
A tarde era o momento mais esperado: o combate entre gladiadores. O público era dividido principalmente em dois grupos de fãs : os “parmularii” e os “scutarii”. No final da luta, quando um dos dois gladiadores estava no chão, quase morto, o público dava sua opinião: eles se comunicavam com gestos bem definidos e gritavam “iugula” (corte de garganta) ou “missum” (liberte), dependendo do resultado desejado.
Tornando-se um gladiador
Os gladiadores eram recrutados principalmente entre escravos, condenados à morte e prisioneiros de guerra, mas também havia homens que decidiam livremente se submeter ao Lanista [1], ou empresário. Após o recrutamento, o gladiador se tornava parte de uma família e começava um treinamento duro em escolas especiais. Uma disciplina muito rigorosa, na qual não faltavam punições, era acompanhada de cuidadosos cuidados com o corpo e a alimentação. A dieta era baseada em cereais e leguminosas e é por esta razão que Plínio definiu os gladiadores como Horderaii, ou seja, comedores de cevada. Instrutores especiais, os médicos , cuidavam dos recrutas. Geralmente eram ex-gladiadores libertos que haviam obtido o rudis . Dependendo das armas utilizadas, cada gladiador era designado a uma categoria específica: podiam ser trácios, mirmillones, reciários, tesouras, só para citar alguns. Durante os shows, os dois concorrentes geralmente não pertenciam à mesma categoria. Dessa forma, cada gladiador podia destacar as habilidades que havia adquirido e o duelo se tornava mais emocionante.
[1] O lanista era o dono da escola / quartel, o ludus gladiatorius, onde os gladiadores romanos aprendiam a arte da “Gladiatura”, nascida como uma forma de honra fúnebre para os nobres romanos e praticada através das lutas dos bustuários [2] , tornando-se mais tarde uma forma de entretenimento e um desporto nobre e de alto nível; Segundo Isidoro de Sevilha o termo deriva da língua etrusca
[2] Na Roma Antiga, o bustuário representava uma categoria de gladiadores que lutavam ao redor do bustum (ou pira) de uma pessoa falecida, durante sua cerimônia fúnebre. No início, havia o costume de sacrificar prisioneiros no túmulo ou no busto de seus próprios guerreiros: exemplos disso são encontrados em Homero , durante o funeral de Pátroclo e entre os trágicos gregos.
Acreditava-se que o derramamento de seu sangue poderia apaziguar os deuses infernais e torná-los propícios para acolher os restos mortais dos falecidos. Mais tarde, porém, esse costume pareceu muito bárbaro e, no lugar dessas vítimas, foram escolhidos gladiadores para lutar, cujo sangue, acreditava-se, teria o mesmo efeito.
Segundo os escritores Valério Máximo e Floro , Marco e Décimo, filhos de Bruto , foram os primeiros em Roma a honrar o funeral do pai com esse tipo de espetáculo no ano 489 ab urbe condita. Alguns acreditam que os romanos herdaram esse costume dos etruscos , que por sua vez o herdaram dos gregos .
O lanista era, essencialmente, um empresário que negociava gladiadores e os alugava ao organizador (editor ou munerarius) dos espetáculos de gladiadores, os "munera", obtendo seu próprio lucro que não diminuía mesmo se o gladiador morresse durante a luta; neste caso, de fato, o munerarius, além de pagar a taxa, também compensava o lanista pelo valor do gladiador, uma espécie de compensação pelos seus ganhos futuros perdidos (lucro cessante). Esta foi uma das razões pelas quais a atividade do lanista foi desprezada no mundo romano e considerada de nível mais baixo, até mesmo inferior à dos proxenetas.
O lanista era, geralmente, um ex-gladiador auxiliado em sua atividade pelos Doutores (ou Magistri), veteranos habilidosos, libertos do status de gladiador, que, uma vez concluída sua atividade competitiva, eram agraciados com a rudis (a espada de madeira) e, portanto, elevados à categoria de rudiarii ; Ele frequentemente carregava uma varinha ( virga ) considerada um sinal de comando e tinha o cuidado de guardar o equipamento de seus gladiadores em diferentes lugares dentro do ginásio, dependendo de sua habilidade.
Um dos mais famosos lanistas foi Lêntulo Batiato. Em 73 a.C., Batiato era dono de uma escola de preparação de gladiadores em Cápua, Campânia (Itália), que reunia principalmente escravos gauleses e trácios. Segundo Plutarco, em sua “Vida de Crasso”, os maus-tratos infligidos por Batiato levaram cerca de duzentos escravos à revolta e a tentar fugir da escola. Setenta e cinco deles conseguiram, entre eles Espártaco, que viria a se tornar o principal líder da Terceira Guerra Servil (73 a.C. - 71 a.C.), a maior revolta de escravos ocorrida na Itália Romana.

Tirones, um novato, depois da primeira luta se tornou um veterano. Cada gladiador tinha uma tábua de marfim que era como um documento de identidade. Levava seu nome, o do lanista e as datas das vitórias. Com base no número e no resultado das lutas, o gladiador podia receber o título de primus palus ou secundus palus, nome que vinha do bastão de madeira usado durante o treinamento. Os vencedores recebiam uma palma e enormes somas de dinheiro. Mas o prêmio mais desejado era a espada de madeira, a Rudis , graças à qual era possível ganhar a liberdade.
Origens
A origem do combate entre gladiadores (gladiatória) é comumente rastreada até 264 a.C. , ano da eclosão da Primeira Guerra Púnica, para comemorar o falecido Decimus Brutus Pera. Ao longo do tempo, os gladiadores foram frequentemente comparados aos etruscos, no entanto uma influência grega pareceria mais plausível: já na Ilíada Homero narra que Aquiles havia organizado jogos fúnebres para Pátroclo ; Além disso, os anfiteatros mais antigos estão localizados na área da Campânia, o que ressalta a proximidade com o mundo grego e osco-samnita, em vez do etrusco.
O amor dos romanos pelos gladiadores (cujo nome deriva da palavra gladius, a espada romana: “portadores de gladiadores”) tornou-se visceral já no século II a.C., tanto que o poeta Terêncio , em 160 a.C., viu o público abandonar sua comédia Hécira (“A Sogra”) porque se espalhou a notícia de que uma luta entre gladiadores estava acontecendo nas proximidades.
A importância destes “jogos” (munera) é também demonstrada pelos numerosos testemunhos de autores contemporâneos ao longo dos séculos, como Cícero, Horácio, Tito Lívio, Sêneca, Marcial, Tertuliano e Agostinho de Hipona , para denotar a transversalidade e continuidade deste costume. Também famosa é a rebelião do gladiador Espártaco , que foi um dos episódios mais traumáticos do século I a.C. para a República Romana e certamente a maior revolta de escravos daquela época.
Os espetáculos eram divididos em ludi scaenici (teatro) e ludi circenses (corridas de bigas), dedicados aos deuses, em datas pré-estabelecidas. Os jogos de gladiadores, por outro lado, eram munera, que em latim significa dever, era um espetáculo devido por um magistrado ou por um indivíduo privado ao povo e não em honra aos deuses. Os gladiadores, eram, em sua maior parte, escravos (até mesmo cidadãos livres podiam ser entregues à escravidão por um certo período), prisioneiros de guerra, condenados, etc. Treinavam em escolas espalhadas por todo o império, administradas por lanistas, cuja profissão era considerada altamente infame.
Durante o governo de Adriano, era proibido vender escravos a um lanista, a menos que fossem culpados de algum crime.
No entanto, era possível recuperar a liberdade dando uma rudis , uma espada de madeira, a um magistrado ou ao imperador . Entretanto, lutar na arena era vergonhoso e os libertos não recebiam cidadania romana, mas sim infâmia, que os proibia de ocupar cargos políticos, herdar propriedades e comparecer como testemunhas. Desde 19 d.C., os senadores eram proibidos de lutar no anfiteatro (com o nascimento do império, muitos despejaram seus sonhos de glória na arena).
Dessa perspectiva, pode-se entender facilmente como as frequentes aparições de Cômodo no Coliseu pareciam aberrantes aos olhos dos senadores. A esse respeito, temos o testemunho direto de Dião Cássio, senador na época de Cômodo, que conta como o imperador participou inicialmente das venationes atirando dardos com segurança de uma balaustrada, depois como gladiador, mas com armas de madeira, uma luta que precedeu a luta real entre gladiadores.
Parece que em algum momento o imperador também decidiu usar uma pele de leão e uma clava, como um novo Hércules . De qualquer forma, os árbitros sempre reconheciam sua vitória e Cômodo sempre pedia salários maiores, como se fosse um verdadeiro gladiador. Essa paixão de Cômodo também é evidente no filme Gladiador , de Ridley Scott .
Tertuliano sublinha eficazmente a contradição entre um povo que amava os espetáculos e, ao mesmo tempo, considerava vergonhosa a condição daqueles que ali lutavam:
“E assim os promotores e administradores de espetáculos, ao mesmo tempo em que exaltam os cocheiros, atores, atletas, gladiadores — todos idólatras, para os quais os homens submetem suas mentes e as mulheres (ou mesmo os próprios homens) seus corpos, e para os quais eles se entregam a ações que de outra forma desaprovam — ao mesmo tempo em que os exaltam, eles os humilham e menosprezam; não, eles os condenam abertamente à ignomínia e à perda de seus direitos civis, expulsando-os da cúria, da rostra e do senado, da ordem equestre e de todas as outras honras e de um certo número de distinções. Que inconsistência!”
De spectaculis ad martyras, XXII, 2-3
“O ferro que as mulheres amam”
Os espetáculos de gladiadores foram tão abusados para fins eleitorais que no final foi necessário tentar conter o problema: o número de espetáculos públicos foi reduzido para uma vez por ano (excluindo os extraordinários) e duas vezes em Roma (uma para cada pretor) por Augusto . Marco Aurélio também tentou regular a quantidade de dinheiro a ser investida em espetáculos, tentando conter custos que aumentaram enormemente ao longo do tempo. Tibério, por exemplo, ofereceu 100.000 sestércios para que gladiadores aposentados voltassem a lutar.
De qualquer forma, a figura do gladiador era muito apreciada pelas massas, que frequentemente e voluntariamente o idolatravam, e em particular pelas mulheres. Por exemplo, dizia-se que o suor dos gladiadores era um poderoso afrodisíaco. Isto não deixou de despertar a ironia e o desprezo de alguns, como Juvenal, que conta a história de um gladiador muito feio, adorado pelas mulheres:
“[…] e ele tinha muitas cicatrizes no rosto, e seu cabelo / era ralo pelo capacete e no meio do nariz / uma verruga muito grande; e uma dor aguda sempre fazia um olho pingar. / Mas ele era um gladiador! É isso que / faz dessas pessoas tantos Jacintos! / Ela preferia isso aos lírios e ao seu país, / isso à sua irmã e ao seu marido! / O que eles amam é ferro.
Sátiras, II, VI, vv. 165-173
Juvenal encerra estes versos com um duplo sentido que permanece plenamente apreciável também no idioma italiano: “ ferrum est quod amant [mulieres] ”, “é o ferro que [as mulheres] amam”.
O polegar para baixo, Pollex Versus e Pollex Pressus
Nos tempos antigos, para julgar os gladiadores, o pollex versus era usado. Contudo era virado para cima ou horizontalmente, para indicar “a espada que mata”, momento em que o público gritava “ iugula! “, ou seja, “mate!”.
Já o pollex pressus, ou seja, o punho fechado, indicava uma espada na bainha e, portanto, a preservação do gladiador derrotado (que era a norma absoluta – a morte era decretada apenas se o gladiador derrotado tivesse lutado muito mal ou covardemente, algo altamente improvável para gladiadores profissionais), enquanto o público gritava “mitte!”, ou seja, “deixe-o ir”.
Nota: Desde o século I d.C., lutas até a morte eram proibidas. Os custos e as poucas lutas que tornavam a matança repetida de gladiadores eram consideradas um desperdício. Diferente o caso dos “damnati ad ludum” , ou seja, aqueles condenados à morte que tinham que lutar na arena.
Rebus da História, A briga no Anfiteatro de Pompéia, a tumba de um desconhecido
O novo túmulo monumental em Porta Stabia, construído pouco antes da erupção do Vesúvio (razão pela qual está excepcionalmente bem preservado), revela novos dados significativos sobre a história de Pompéia em suas décadas finais.
Trata-se de uma inscrição sepulcral na forma de res gestae (ou seja, contendo uma descrição dos feitos realizados durante a vida). As inscrições sepulcrais, notoriamente, contêm o nome do falecido, podem ou não indicar idade, status social e carreira ou outras informações biográficas. Para os magistrados, a citação das atividades exercidas é resumida no cursus honorum (carreira pública); outras referências são bastante raras.
Nesse particular caso, porém, o falecido é homenageado, algo que não existe igual em Pompéia.
São lembradas ações e atividades realizadas por ocasião de momentos importantes da biografia do falecido: a assunção da toga viril e o casamento. Eventos celebrados com atos de munificência: banquete público, presentes em dinheiro de prata; de moedas aos magistrados das associações e, sobretudo, jogos grandiosos com lutas entre gladiadores e com feras. Uma prática difundida entre proprietários de terras para ganhar prestígio e promover sua carreira política. Não é por acaso que, como relata a inscrição, o falecido exerceu posteriormente o cargo de duoviro.
Graças à citação de eventos atuais da vida do falecido, dados muito importantes sobre a história de Pompeia vieram à tona, também com referências ao famoso episódio narrado por Tácito, Ana. XIV, 17, que ocorreu em Pompéia em 59 d.C., quando durante um show de gladiadores ocorreu uma briga no anfiteatro que degenerou em um conflito armado. O evento atraiu a atenção do imperador Nero, que instruiu o senado em Roma a investigar o assunto. Após as investigações dos cônsules, como relata Tácito, os pompeianos foram proibidos de organizar novos eventos de gladiadores por 10 anos; associações ilegais foram dissolvidas; o organizador dos jogos, o ex-senador de Roma Livineius Regulus, e aqueles que instigaram o ato foram exilados. Até aqui, a passagem de Tácito, no entanto, não é explícita sobre o destino dos douviri, afirmando apenas, de forma genérica, que todos os envolvidos foram banidos.
Na inscrição que completa a informação de Tácito, é feita pela primeira vez referência ao exílio que teria afetado até mesmo os dois mais altos magistrados em exercício, ou seja, os duoviros da cidade.
A inscrição fornece, portanto, dados inéditos sobre um momento importante na história política e institucional de Pompéia, restaurando o cenário de uma intriga obscura apenas sugerida por Tácito.
Considerando o que resta e os vestígios visíveis, bem como as pesquisas de arquivo atualmente em andamento, é mais do que provável que a parte superior do túmulo, danificada pela construção do edifício de San Paolino no século XIX, tenha sido completada com um relevo conservado no MANN (Museu Arqueológico Nacional de Nápoles). Se considerarmos o papel que os espetáculos de gladiadores e as venationes têm no elogio fúnebre, podemos levantar a hipótese de que o conhecido relevo com cenas de gladiadores e caça de animais preservado no Mann foi colocado lá. O relevo, de fato, tem dimensões compatíveis com o monumento, que tem aproximadamente 4 m de comprimento, e responderia bem ao tema do papel do falecido como um extraordinário organizador de jogos. Além disso, o relevo, descoberto pelo superintendente Avellino na década de 1840, foi encontrado fora do lugar (devido aos danos sofridos pelo monumento, evidentemente durante a construção de San Paolino), bem na área de Porta Stabia.

Quem é o falecido, então? Infelizmente, a inscrição não contém o elemento fundamental , que supomos ter sido colocado na parte superior do túmulo, que não se encontra mais preservado. Dada a tipologia do túmulo, um quadrilátero com lados côncavos encimados por um dado, de fato, poderia muito bem ter sido encontrado em um bloco separado, com caracteres maiores.
Uma pista pode ser fornecida pela localização do túmulo próximo ao túmulo já descoberto, mais antigo, localizado no mesmo lado. Pertence à família Alleii.
Alleius Nigidius Maius [3], foi um das personagens mais proeminentes da era Neroniano-Flaviana. Era um expoente da nova classe dominante que se afirmou na era Nero-Flaviana. Foi aclamado várias vezes em Pompéia precisamente como um generoso dispensador de jogos. Na verdade pode-se dizer que ele foi o mais famoso entre os empresários de espetáculos de gladiadores da cidade. O personagem, um liberto, foi o principal expoente da classe dominante das últimas décadas da vida da cidade, tendo-se estabelecido – devido à extrema mobilidade social daqueles anos – graças à sua adoção pela importante família Alleii.
Pertencia-lhe a Insula Arriana Polliana (ínsula da casa de Pansa), da qual alugou tabernae cum pergulis suis et cenacula equestria et domus, como relata outra epígrafe que lhe faz referência (CIL IV 138).
Se a identificação com o personagem estiver correta, temos pela primeira vez um título monumental, já que sua trajetória até então era conhecida apenas por meio de inscrições pintadas em paredes.
[3] Cneu Alleius Nigidius Maius (15–23 d.C. – 79 d.C.?) foi um político e rico empresário da antiga Pompéia que ganhou grande popularidade entre os cidadãos da cidade por meio de seu patrocínio de jogos de gladiadores e outros espetáculos.
Vida de Gladiador
Podemos ter uma ideia de como era a vida real dos gladiadores a partir de algumas descobertas e pesquisas relacionadas feitas por historiadores: sabemos, por exemplo, que havia um sistema de classificação bastante semelhante à classificação dos jogadores de tênis modernos: era chamado de palus , um nome que deriva do poste de madeira contra o qual os gladiadores treinavam. A contagem das vitórias era feita pelos escravos, cuja tarefa era manter as classificações atualizadas dentro do ludus em que viviam. Após o “batismo da arena”, independentemente de o duelo ser ganho ou perdido, tornava-se automaticamente veterano, ou seja, a categoria mais baixa, que correspondia ao nível de quartus palus. A patente mais alta que poderia ser alcançada, no entanto, era a de primus palus.

A patente de primus palus também implicava responsabilidades para com os lutadores mais jovens do esquadrão (ou seja, os gladiadores sob o mesmo dono, o lanista ). O gladiador de mais alta patente tinha que ajudar a manter a ordem e a disciplina entre os recrutas e, ao mesmo tempo, incentivá-los a dar o melhor de si, já que toda a família se beneficiaria disso. As derrotas tinham que ser evitadas a todo custo, pois comprometeriam a reputação do time, resultando em uma consequente redução de salários. Garantir a boa conduta no ludus , portanto, não era apenas dever do lanista (o dono de uma equipe de gladiadores) e dos instrutores, mas também dos “anciãos” do grupo que aspiravam a se despedir. Uma vez obtido, a carreira terminava e as portas do ensino se abriam, ou seja, tornava-se doutor . Dentre esses mestres de esgrima, os mais merecedores eram selecionados como árbitros das partidas, alcançando assim o posto de summa rudis , o nível mais alto ao qual se poderia aspirar. Em suma, as possibilidades de continuar a carreira no campo dos gladiadores após o fim da sua “prática desportiva” eram muitas.
A forma como se poderia subir na classificação, no entanto, dependia essencialmente das vitórias obtidas. Graças a alguns grafites, é possível entender como a partitura foi registrada e quanta precisão foi usada para documentá-la. Uma minúcia que, hoje, lembra muito a perícia de alguns jornalistas esportivos, amantes da estatística.
Nas paredes de um túmulo no cemitério de Porta Nocera, foi impressa uma espécie de “comentário vivo” do munus ocorrido em Nola . Em primeiro plano estão representados dois gladiadores frente a frente; acima de cada um deles você pode ler o nome e dois números; o primeiro é a contagem de duelos travados, seguido de uma chave de rodada fechada ( coronarum), após a qual aparece o número de partidas vencidas. A próxima letra representa o resultado da luta em andamento: V significa vicit (“ele venceu”); M de missus, significando que o gladiador perdedor foi perdoado e salvou sua vida; Ø ( theta nigrum ), indica a morte do lutador.
Por exemplo, a primeira inscrição mostra o encontro entre dois gladiadores, Hilarus Ner e Creunus.
A abreviatura “Ner”, após o nome do primeiro, significa “Neroniano”, para indicar a origem da escola de gladiadores do imperador Nero. Uma especificação que lembra muito o que ainda se faz hoje quando, falando de um jogador de futebol, mencionamos o sistema juvenil em que ele cresceu. Hilarius lutou 14 (XIV) lutas e venceu 12 delas. Abaixo de seu nome, o V de vicit, significa que ele venceu o duelo atual. O desafiante é Creunus, um hoplomachus com sete (VII) duelos em seu currículo e cinco (V) vitórias. A letra M ( missus ) depois do número 5 (V) de vitórias nos diz que ele foi quem perdeu esse duelo e foi perdoado.
O grafite no munus Nola é um dos poucos exemplos que mostram brigas que aconteceram durante o mesmo show. A fórmula na qual isso é estabelecido parece ser a mesma do tênis, onde há um sistema de “sementes”. Os torneios da ATP, por exemplo, são organizados de forma que os cabeças de chave número 1 e número 2 só possam se enfrentar na final, quando o público está no auge.
Tal sistema também deveria ser aplicado aos munera mais importantes , mesmo que o número de partidas não fosse comparável ao de um torneio de tênis. A expectativa do público estava, portanto, totalmente voltada para a “final”, o dia em que os lutadores mais fortes se desafiariam.
No caso do show de Nola, o duelo marcado na final deveria ter sido entre os dois jogadores “cabeças de chave” do torneio, Hilarus Ner. e L. Raecius Felix. Mas o recruta M. Attilius atrapalhou os planos, derrotando o gladiador mais bem cotado e se estabelecendo como a revelação do torneio.
Embora a plebe da cidade não apreciasse particularmente os jogos gregos, em Roma o costume de premiar os vencedores com coroas de folhas foi revivido. A planta que mais intimamente estava ligada ao destino da cidade era, sem dúvida, o louro, planta sagrada para Apolo, símbolo de glória e sabedoria. Em Roma, tornou-se o símbolo que celebrava o triunfo primeiro dos generais e depois dos imperadores e, mais tarde, as vitórias de atletas e gladiadores. Um ramo de palmeira também era associado à coroa de louros.
Além desses prêmios simbólicos, os romanos também adotaram dos gregos o costume de premiar somas de dinheiro e objetos preciosos. Suetônio conta que Cláudio, durante uma cerimônia de premiação, começou a contar em voz alta as moedas de ouro que ele daria diretamente aos vencedores. Sabemos por Martial que as placas de prata nas quais o dinheiro era colocado também eram entregues junto com o prêmio em dinheiro. Não se sabe exatamente quanto valia esse premio , mas há mosaicos, como o da Villa Romana del Casale, que nos mostram isso: no centro da arena está representada a luta entre Pã e Eros, na parte superior os prêmios para os vencedores. Além de alguns vasos contendo ramos de palmeira, no chão podem ser vistas duas bolsas com a quantia escrita em dinheiro para quem alcançasse a vitória: 22.000 denários (ou seja, 88.000 sestércios).
Embora seja uma representação, essa pista oculta pode dar uma ideia sobre a quantidade de prêmios no século IV. d.C. e, como se trata de uma luta, não se pode excluir que se tratasse de uma figura semelhante à recompensa dos gladiadores, os lutadores mais populares da época.
Há muitos outros aspectos fascinantes da vida (e morte!) dos gladiadores que podem ser obtidos de fontes históricas e arqueológicas.
Existiam diversas tipologias de equipamentos que correspondiam a determinadas técnicas usadas em combate. As classes mais populares eram:
Período republicano:
O Samnes - A classe de gladiadores mais antiga. Su aarmadura, assim como seu nome, deriva dos guerreiros sanitas.
O Gallus - Provavelmente fez sua primeira aparição em época cesariana, após a campanha da Gália.
Traex republicano - Terceira e última classe desse período. Seu nome tem origem nos guerreiros trácios, com os quais os romanos tiveram contato pela primeira vez durante a guerra contra o rei Mítridates VI.
Idade imperial
Traex imperial - Este período da história de Roma, em particular o I século d.C., pode ser considerado como clássico, no que diz respeito à armadura e classes dos gladiadores. Na pesquisa da documentação da época, encontra-se uma definição bastante ampla sobre o equipamento dos gladiadores. É nessa época que os elmos sofrem uma profunda mudança, especialmente durante o período correspondente à dinastia Giulio-Claudia, com a couraça cobrindo praticamente toda face, como uma máscara com apenas dois furos para os olhos, protegidos por uma grelha. Uma espécie de capacete (tesa), protegia o alto da cabeça, indo até a nuca.
Entre o período neroniano e a disnastia Flávia, os elmos sofreram uma notável modificação. Os dois furos circulares para os olhos são substituídos por uma única grande abertura protegida por uma grelha, e a cobertura antes retilínea, agora é flexionada para baixo, em ambos os lados. Eram muito utilizados nas arenas dos anfiteatros de Pompéia e região campana do sul da Itália. Essa modificação se estendeu por toda idade médio-imperial, passando a identificar a classe de gladiadores conhecida como dos Murmillos (Mirmilones)
O Retiarius - Fazia uso de rede e tridente. Era o único gladiador que tinha a permissão de escapar ao combate frontal, correndo pela arena na intenção de cansar seu adversário. Não era um tipo de combatente apreciado pelo público.
O Murmillo - Era a classe mais comum entre os gladiadores, onde o mais famoso deles foi Espártaco. Seu nome, provavelmente, se deve a um peixe de nome murma (em grego) que adornava seu elmo, expondo-o à captura com a rede do Retiarius.
O secutor.
O Provocator.
O Eques.
O Essediarius
O Saggitarius.
O Veles.
O Bestiarius
O Dimachero.
O Spataharius
Opulência e riqueza
Em 177 d.C., o Imperador Marco Aurélio e seu filho Cômodo fizeram com que o Senado aprovasse uma lei para conter os custos dos “munera”. Foi estabelecido um limite de gastos para os shows e um limite para o preço a ser pago pelas apresentações dos gladiadores. Pela primeira vez na história, um “teto salarial” foi estabelecido, séculos antes do teto salarial, o sistema usado para regular o fluxo de dinheiro nos esportes profissionais, chegar ao mundo do futebol europeu ou do basquete americano.
Os espetáculos foram divididos em quatro faixas correspondentes ao orçamento a ser investido, e cada faixa estava associada à remuneração dos gladiadores de acordo com a categoria a que pertenciam.
A compensação mínima era de 3.000 sestércios para um gladiador de categoria mais baixa, até um máximo de 15.000 sestércios para alguém pertencente à categoria mais alta de sestércios.
A Lei Antonina também previa que metade dos gladiadores empregados eram gregários , cujo custo variava entre 1.000 e 2.000 sestércios. Eram de baixo valor, não incluídos nas faixas de preço estabelecidas por lei.
Essas limitações eram válidas apenas para os espetáculos organizados pelos magistrados nas províncias, mas não se aplicavam aos munera oferecidos pelos imperadores na cidade; por exemplo, Tibério ofereceu 100.000 sestércios a dois famosos ex-gladiadores (rudiarii, libertos protadores da Rudis) para honrar a memória de seu pai e avô Druso.
Poderíamos, portanto, levantar a hipótese de uma comparação entre os salários oferecidos por Tibério e os dos ídolos esportivos mais famosos da atualidade. A comparação pode parecer arriscada, mas, em ambos os casos, estamos falando de jogadores de elite, de ponta em suas respectivas épocas e, como tal, superpagos, com valores bem acima da média.

Nero (54-68) Sestércio (Lugdunum) Cabeça laureada à direita. rev.: O Templo de Janus
Graças à descoberta do arquivo de Lúcio Cecílio Iucundo, é possível fazer uma comparação com o custo de vida no século I. C. Um escravo tinha um preço de venda estimado entre 1.200 e 2.500 sestércios. O salário anual de um legionário, considerado por muitos uma fonte segura de renda, comparável ao “cargo permanente” atual, era de 300 denários, o equivalente a 1.200 sestércios. Um século depois, apesar do “teto salarial” imposto na era Antonina, a compensação mínima para uma única apresentação de um gladiador era de 3.000 sestércios, mais que o dobro do salário anual de um soldado. Essas enormes diferenças nos ajudam a entender os interesses e a atração econômica que a profissão de gladiador exercia sobre a sociedade da época. O fato de muitos gladiadores serem escravos não significava que eles ainda pudessem viver uma existência mais do que confortável.
Em suma, não é arriscado fazer uma comparação entre os melhores gladiadores e os campeões esportivos da atualidade, pelo menos em termos de ganhos; Além disso, dada a natureza espetacular de suas performances, eles também poderiam ser comparados a estrelas de televisão.
No primeiro livro de uma trilogia que Alberto Angela dedica ao imperador Nero, levanta-se a hipótese de que, durante o século I a.C., um sestércio correspondia aproximadamente a seis euros; tomando esses dados como válidos, ainda se poderia tentar levantar a hipótese de uma comparação entre o salário oferecido por Tibério e o dos ídolos esportivos modernos. Pesquisando online, você pode descobrir, por exemplo, que LeBron James, estrela do Los Angeles Lakers, na temporada 2019/2020 recebeu um salário de 36 milhões de dólares (excluindo patrocínios), jogando um total de 82 partidas. Quanto ao mundo do futebol, na mesma temporada o campeão Cristiano Ronaldo teve um salário de 31 milhões de euros (excluindo patrocínios), disputando aproximadamente 60 partidas entre liga e copas.
Disto podemos deduzir que, por uma única “performance”, os gladiadores da era Tibério recebem mais do que Cristiano Ronaldo e LeBron James. Também sabemos que os vencedores geralmente recebiam prêmios em dinheiro e bens valiosos do organizador dos jogos. Na prática, uma renda extra que se assemelha muito aos patrocínios para atletas modernos. Com os prêmios conquistados, alguns gladiadores conseguiam ter uma vida mais do que digna, se comparada às condições vividas pelas classes sociais mais pobres.
Os gladiadores mais famosos
Na Roma antiga, os jogos de gladiadores atraíam milhares e milhares de espectadores às arenas por todo o império, tornando-os verdadeiras celebridades que podem ser comparadas aos nossos jogadores de futebol contemporâneos mais famosos.
Mas quem foram os gladiadores mais famosos de Roma?
Quase todos eles eram prisioneiros de guerra, criminosos ou escravos, mas em alguns casos podiam ser simplesmente homens livres que empreenderam essa carreira pelos altos ganhos que ela garantia, desde que, é claro, permanecessem vivos. Após uma longa série de vitórias ou uma carreira particularmente boa, o gladiador em questão obtinha o bastão de madeira chamado "Rudis" que de fato lhe dava liberdade. Contudo são conhecidos vários casos em que o lutador declinou a preciosa oferta, e essencialmente por dois motivos específicos: primeiro porque as lutas, apesar do que se possa pensar, só em uma parte mínima terminavam em morte, pois os gladiadores eram muito admirados pelo público, que certamente gostaria de ver de volta à arena mesmo aqueles que haviam saído derrotados, mas que lutaram com coragem, e, detalhe a não ser esquecido, tinham um custo altíssimo a ser ressarcido ao lanista, pelos organizadores dos jogos. Em segundo lugar, um gladiador vitorioso teria ganho somas exorbitantes de dinheiro, até mais do que um general valente poderia ganhar, então faz sentido que um lutador preferisse continuar acumulando enormes fortunas.
As lutas na arena eram a principal atração para os romanos desde a época da República. Homens, mas também mulheres, desafiavam-se entre si. As lutas contra feras selvagens, importadas para Roma e para todo o império, vindas dos cantos mais remotos do mundo então conhecido, também eram muito apreciadas. Somente os mais habilidosos e corajosos se tornavam verdadeiros heróis, o que lhes garantia uma vida confortável, o privilégio de participar dos banquetes mais suntuosos da cidade e de acumular grandes fortunas. Alguns deles se tornaram tão famosos que até hoje grafites glorificando seus feitos são encontrados regularmente em várias partes da Europa.
Na Roma antiga, as lutas ocorriam frequentemente entre gladiadores, cada um com características e armas diferentes, mas como mencionado anteriormente, as lutas entre homens e feras também eram muito apreciadas, e os gladiadores especializados neste tipo de luta eram chamados de “Bestiarii”.
Carpophorus pertencia a esta categoria que por sua vez era dividida em dois tipos:
Havia o bestiário, condenado contra sua vontade "ad bestias" por um crime grave, que era jogado na arena, mal armado e praticamente sem proteção, e obrigado a lutar contra alguns animais selvagens, que podiam ser leões, ursos, javalis, touros ou leopardos, e neste caso as chances de sobrevivência eram iguais a zero, também porque se o infeliz conseguisse matar algum animal, outros eram continuamente introduzidos na arena até que suas forças se esgotassem completamente, tanto que em muitos casos o condenado preferia tirar a própria vida, a enfrentar a tortura.
Porém, havia também o bestiário voluntário, ou seja, aquele que refinava seu treinamento especificamente para enfrentar os animais mais ferozes, e era a carreira mais perigosa de todas e com menor expectativa de vida.
As poucas informações que nos chegaram sobre o “bestiário” Carpóforo nos dizem que, além de lutar contra feras selvagens na arena, ele também tinha experiência em treiná-las. Dizem que sua melhor performance foi matar até 20 animais diferentes em um único show, estrangulando alguns deles apenas com a força de seus braços, tanto que o famoso poeta Marcial escreveu que Carpóforo teria sido capaz de matar a Quimera e o Touro Cretense em uma única luta se tivesse tido a chance, infelizmente não nos é dado saber mais nada sobre este famoso “bestiário”.
O épico encontro entre Prisco e Vero: Sempre bons amigos, Prisco e Vero se tornaram gladiadores na época da inauguração do Anfiteatro Flaviano, ou Coliseu, durante o reinado de Tito. No primeiro dia dos jogos, o Coliseu estava lotado e os dois homens nas passagens subterrâneas que levavam à arena aguardavam ansiosamente o anúncio de seus primeiros desafiantes, mas ficaram chocados, para dizer o mínimo, quando souberam que teriam que lutar um contra o outro até a morte.
Dado o grande respeito que tinham um pelo outro, os dois se envolveram em uma luta épica que durou várias horas, ambos tendo apenas um escudo e uma espada, mas como nenhum deles sucumbiu, o próprio Tito ordenou que os dois gladiadores baixassem seus escudos. Os dois obedeceram, mas junto com o escudo também jogaram fora a espada para continuar a luta com as próprias mãos. Ao final da luta, os dois exaustos e feridos foram declarados pelo imperador, ambos vencedores pela grande coragem que demonstraram, um caso único relatado na história de Roma. Por esse confronto heróico, os dois receberam de presente a “Rudis”, a espada de madeira que lhes dava liberdade.
Marco Attilius: Marco Átilio não era um escravo nem um criminoso, muito menos um prisioneiro de guerra. Era um cidadão romano comum que, devido às grandes dívidas que havia acumulado, decidiu por livre e espontânea vontade tornar-se gladiador, com o objetivo de ganhar o dinheiro necessário para pagar seus credores.
Embora ainda fosse um novato, Attilius imediatamente demonstrou seu talento e grande habilidade, derrotando em sua primeira luta um certo Hilarius, um gladiador que já tinha doze vitórias em seu currículo. Pela coragem demonstrada na luta, Hilário recebeu o perdão e pôde aparecer na arena novamente. Mais tarde, Marcus Attilius derrotou Lucius Raecius Felix, um gladiador veterano que também havia conquistado muitas vitórias, e foi perdoado no final da luta. Algumas gravuras encontradas em Pompéia, e esculpidas por um cidadão, certamente impressionado com suas habilidades, nos contam sobre as façanhas de Atílio, que é representado como um mirmillo, ou seja, um gladiador equipado com um grande capacete que cobria todo o seu rosto, um pesado escudo retangular, uma espada e uma greva que protegia apenas uma perna do joelho para baixo. Mesmo para Átilio as notícias param por aqui, então não sabemos se sua habilidade com armas se devia ao fato de ser um ex-soldado, ou se ele era simplesmente dotado de talento, nem sabemos qual foi seu fim.
Flamma: O soldado sírio Flamma foi, sem dúvida, um dos gladiadores mais renomados do império. Capturado pelos romanos na Síria, foi forçado a lutar na arena, logo se tornando uma celebridade por sua habilidade e pelas grandes riquezas que havia acumulado.
Em sua primeira luta, viu-se diante de um dos melhores gladiadores da época e, enquanto todos os espectadores esperavam um duelo curto, Flamma virou a situação e venceu inesperadamente, dando início à sua brilhante carreira.
Flamma era um “Secutor”, literalmente um perseguidor, equipado com um capacete redondo, com apenas dois pequenos furos para permitir a visão, mas também para se defender do temível tridente do “Retiarius”, um longo escudo côncavo, uma manga feita de placas de metal, que protegia o braço direito e o clássico gládio como arma.
Sabemos que sua carreira durou 13 anos, durante os quais ele lutou 34 vezes, vencendo 21 vezes, 9 vezes a luta terminou empatada e 4 vezes ele foi perdoado.
Graças ao seu talento, Flamma recebeu o “rudis” quatro vezes, mas sua estrela estava em constante ascensão e ele recusou sua liberdade quatro vezes para continuar sua carreira. Todas as suas lutas aconteciam no Coliseu e quase sempre eram o evento principal do dia. Na verdade, era impossível encontrar um lugar dentro da arena em suas lutas. Sua fama era tão grande que, na época, moedas foram cunhadas com sua efígie, uma honra concedida a poucos. Flamma morreu aos 30 anos durante sua última luta no Coliseu, depois foi transportado para a Sicília e provavelmente enterrado lá. Seu companheiro de armas, Delicatus, mandou esculpir a pedra funerária, que infelizmente se perdeu, mas da qual encontramos vestígios em alguns escritos do século XVIII, que exaltavam seus feitos e que diziam: “FLAMMA SEC VIX. ANN. XXX. PVGNAT. XXXIII. VICIT. XXI. STANS. VIIII. MIS. IIII.”
Spartaco: Não há necessidade de muitas apresentações quando o nome Spartacus é mencionado, certamente o gladiador mais famoso da história. Pouco se sabe sobre suas origens, mas ele certamente nasceu na Trácia e foi capturado e depois vendido como escravo pelos romanos. Quando chegou a Cápua, o lanista Lentulus Batiatus imediatamente notou sua destreza física e o comprou com o objetivo de transformá-lo em um grande gladiador.
Um guerreiro como Espártaco, no entanto, tinha ideias muito diferentes e, quando chegou a hora, em 73 a.C., junto com outros 70 gladiadores do ginásio de Batiatus, iniciou uma revolta que manteve a República Romana sob controle por vários anos.
Durante a fuga em direção ao Vesúvio, milhares de escravos foram libertados e imediatamente juntaram-se a ele, formando um verdadeiro exército que derrotou as tropas do pretor Cláudio no primeiro confronto, bem nas encostas do vulcão.
Com a notícia da vitória, outros fugitivos se juntaram a Espártaco, aumentando suas forças. Até mesmo o pró-pretor Públio Varino foi derrotado pelos rebeldes, que naquela ocasião até mesmo apreenderam as insígnias das legiões e os fardos de lictores do magistrado, uma verdadeira afronta.
Outras batalhas se seguiram, com os homens de Espártaco sempre vitoriosos, pelo menos até 71 a.C., quando o futuro triúnviro Marco Licínio Crasso recrutou 50.000 homens altamente treinados para eliminar os rebeldes. A batalha decisiva ocorreu perto do rio Sele, e ao que sabemos, o próprio Espártaco caiu naquele confronto, embora seu corpo nunca tenha sido encontrado.
Os romanos fizeram 6.000 prisioneiros que, como advertência, foram crucificados ao longo de toda a Via Ápia, de Cápua à Roma, num total de aproximadamente 200 km.
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